Analista vê campanha infinita e diz: “Ideologia não administra cidade”

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Arte: Annie Souza

O cientista político mato-grossense, João Edisom de Souza, compreende que no atual cenário político  de Mato Grosso,  com as recentes eleições de 2020 e 2024, sob interferência do legado do ex-presidente da República  Jair Bolsonaro (PL), se criou um modelo de “campanha infinita”. No recorte recente de prefeitos eleitos, a tendência  é de que eles não desçam do palanque e trilhem no caminho de fomento das redes sociais, o que considera como armadilhas, pois muitos usaram da ferramenta tecnológica para alcançar grande público e ganharam holofotes, evidenciando suas promessas de campanha, que não serão esquecidas. Em entrevista ao , também criticou gestores que chamaram para si  pautas que não são de suas competências, como debates sobre o aborto,  drogas e políticas de gênero, que são exclusivamente tratados na esfera federal, mas no impeto de conquistarem o “voto conservador”, fazem  promessas que não podem cumprir. Para ele, muitos estão cientes, de fato, de seus limites, porém, é preciso  comunicar com o seu público   de maneira eficaz.

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista

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O que muda no cenário político de MT com prefeitos do PL nas principais cidades do estado, como Cuiabá, Várzea Grande, Sinop e Rondonópolis? 

Pela primeira vez, chega com força na administração municipal. Que é, a campanha não termina, você não desce do palanque, você faz a transição fazendo política, você assume fazendo política, você não tem mais os 100 dias. A cada dia que passa, você tem que ser, ao mesmo tempo, um eficiente tiktoker, que tem que trabalhar a sua imagem, tem que ter eficiência na Secretaria de Comunicação, tem que trabalhar a questão da gestão da Prefeitura e tem que ser o gestor, tem que ser técnico.

Nós entramos com uma leva de prefeitos que eles têm uma intensidade de comunicação e essa intensidade de comunicação não tem recurso suficiente para ter a intensidade de realização […] Vamos ter que aprender a lidar com comunicação, lidar com a questão, nesse formato que nós não sabemos, que é o formato mesmo do cara digital, do cara tiktoker. A administração pública tinha uma preocupação exclusivamente com o seu município.

O que acontecia fora das suas fronteiras não tinha problema, a rede social ultrapassou esse limite. Então, fora, imagina, vamos pegar aqui, o prefeito Cuiabá é um ex-deputado federal, que teve voto em todos os locais [do estado em 2022], os caras continuam acompanhando ele, porque são seguidores. Então, ele vai sofrer as pressões locais e as pressões regionais  e como ele foi deputado federal, vai receber pressão de gente que nem conhece  Mato Grosso. Vai querer saber, vai ter o apoiador, mas vai ter o cara também que vai criticar.

Annie Souza

Os novos prefeitos não correm risco de desgaste ao criar grandes expectativas na população?

Uma coisa eu tenho certeza, muitos vão sucumbir nisso. Eles vão pagar o preço do que prometeram durante uma campanha. Porque antes você prometia durante a campanha e alguém, para saber o que você prometeu, ele tinha que entrar lá no Tribunal Regional Eleitoral, encontrar seu plano de governo e olhar. Porque o que ele falou no palanque, ou na televisão, ou no rádio, desaparecia seis meses depois. Ficava nos arquivos. E a pessoa segurava o arquivo e mostrava para as pessoas. Agora não, as pessoas gravaram, está na rede social, as pessoas buscam qualquer cidadão de qualquer local, vai lá e busca e fala aqui. Mas você disse isso, é o que você está fazendo.

[Ainda existe outra situação], como que esses prefeitos que foram eleitos, com essa concepção de trazer para si algo que não tem responsabilidade nenhuma [vão conseguir cumprir?] Tem prefeito que foi eleito porque é contra o aborto. O aborto não é decidido pelo prefeito. Eu sou contra política de gênero. Não é definido pelo prefeito. E agora o cara defendeu isso: Eu votei nele porque é a favor da Bíblia. Na hora que a ponte cai, a Bíblia vai junto. Eu preciso passar para o outro lado e a porcaria do prefeito não arruma a ponte. Então assim, nós temos um discurso muito desconectado, muito longe da realidade administrativa.

Como o senhor avalia as primeiras medidas adotadas pelo prefeito  Abilio em Cuiabá? E essa nova fase, deixando de ser pedra e tornando-se vidraça.

O Abílio [Brunini] fez uma eleição extremamente agressiva. Não estou dizendo que estava certo ou está errado, mas é agressivo. No debate ele é agressivo, no programa eleitoral agressivo, agressivo o tempo todo. Terminou a eleição. Por isso que eu falo que ele tem muita inteligência. Terminou a eleição, ele abaixou a agressividade. Não foi mais um discurso pesado, falou em conciliação, foi uma mais séria. Por quê? Eu precisava desse discurso aqui para vencer a eleição, mas esse discurso não me faz administrar. Então,  ele baixou o tom do discurso.

Só que   teve um intervalo entre a eleição, final de outubro, e 1º de janeiro. Nesse período,  ele abaixou para não se ver tanto impacto agora. Mas não era culpa de nada, porque não estava administrando ainda. Era transição. A partir de 1º de janeiro, esse elemento que segurava ele, chamado Emanuel Pinheiro, saiu de cena. E vai durar quantos dias o discurso? Emanuel deixou de ir, Emanuel administrou errado, não fez isso, fez isso. Isso tem validade. Não sei se é 100 dias, se é 2 meses, 3 meses. Mas vai chegar a hora que o pessoal vai falar assim, para de falar do Emanuel, agora é você.

E ele sabe disso. Então ele subiu de novo um pouquinho o tom, mas já não subiu mais no nível da campanha. Ele subiu o tom e ele está se equilibrando nessa questão. E esse fator não tem nada a ver com colocar saúde, é comunicação. Como que essa nova administração vai comunicar? Em torno disso, dá uma olhada no impacto que é Várzea Grande.

E no caso da cidade de Várzea Grande, o senhor acredita que a prefeita Flávia  vai conseguir governabilidade diante do tensionamento com  presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira?

É uma realidade diferente de Várzea Grande. A prefeita [Flávia Moretti]  errou a dose, ela já vai ter um grupo de ódio contra ela. Independente do que ela faça. E aí tem um detalhe interessante. Dentro do grupo de ódio, [sempre] tem o cara que odeia não por convicção, mas por interesse. [Por exemplo], se você não me comprar, eu vou continuar te odiando. Então, ele está posto para o negócio, está no balcão. Esse negócio é caro. 

Nós mudamos a característica de oposição. Nós não temos mais oposição. Nós criamos um grupo de ódio. Se eu não tenho um mandato, eu odeio o mandato. E não é questão de direita ou esquerda, não. Passou-se ao comportamento geral.

Como esse cenário pode impactar as eleições de 2026?

Continua [da mesma maneira, de forma geral]. A gente tem um exemplo. Eu passei em Minas Gerais, em São Paulo e em Goiás. No estado de Minas Gerais. Dá para ver claramente que o governo do Romeu Zema é horrível. Nada está funcionando, as estradas esburacadas, uma porcaria. Ele venceu ideologicamente o segundo mandato dele. Estava muito ruim. Ele assumiu, não piorou, mas também não fez nada. Como a coisa ficou ali entre voltar ao passado e ficar com ele, ficaram com ele, a opção foi ideológica. Mas se você pegar uma gestão boa, tecnicamente, esse discurso vai embora.

Annie Souza

Com essa nova leva de prefeitos, podemos dizer que a direita se torna  imbatível em Mato Grosso?

Tem uma questão assim, direita e esquerda, ela serve para você fazer eleição. Para ganhar adeptos, ganhar eleitores, isso serve. Mas não serve para administrar a realidade. Porque se administra a partir de dois princípios. O que a legislação te permite, e a legislação está aí. Alguém pode chamar de esquerda, chamar de direita, chamar o que quiser. A legislação é essa. Eu não posso ultrapassar os limites da legislação.

Vou ter que administrar dentro dessa legislação. E a partir das minhas necessidades, que não são de direita e nem esquerda. Esse discurso ideológico, ele não serve para administração. A ponte que cai, ela não quer saber se você é direita ou esquerda. O remédio que faltou no posto de saúde, ele não vai perguntar se você é direita ou esquerda. O cara está precisando do remédio.

A sala de aulas tem que abrir porque não tem mais espaço. O professor tem que contratar. Não é direita ou esquerda, é o profissional que vai funcionar. Então essa questão de direita ou esquerda, desse posicionamento, interessa muito e muito aos legisladores, aos parlamentares e à campanha política. Mas não interessa em nada ao gestor. O gestor vai ter que executar, ele é executor. Na hora de executar, tem que passar por cima disso.

Link da Matéria – via RD News

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