Dos fundos às famílias; entenda a rede de conexões dos alvos da PF

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A decisão que autorizou a Operação Heritage, deflagrada nesta quinta-feira (6) pela Polícia Federal, detalha uma rede de conexões envolvendo agentes políticos, empresários, advogados e fundos de investimento na movimentação dos valores relacionados ao acordo de R$ 308 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a Oi. Parte deles são núcleos de famílias de relevância social em Cuiabá. 

 

Segundo a investigação, os recursos decorrentes do acordo teriam circulado por uma série de fundos de investimento que, conforme a PF, apresentavam conexões com pessoas ligadas aos investigados. A decisão cita estruturas financeiras que envolveriam familiares de agentes políticos e empresas utilizadas como destino dos investimentos.

 

 Conforme a investigação, os valores teriam sido distribuídos em duas estruturas principais de fundos: o Royal Capital FIDC, ligado ao ex-governador Mauro Mendes (União), e o Lotte World FIDC, associado ao deputado federal Fábio Garcia (União) e pessoas próximas ao parlamentar.

 

A PF aponta que a primeira estrutura teria como ponto inicial o Royal Capital FIDC, que teria recebido cerca de metade dos valores provenientes do acordo. A partir dele, segundo a investigação, os recursos teriam passado pelo Zurich FIM CP e pelo London FIP, que posteriormente adquiriu participação na Parecis Bioenergia Ltda.

 

A conexão com a família de Mauro Mendes estaria no GS Heritage FIP, antigo 5M, que tinha entre seus cotistas os filhos do ex-governador: Luis Antônio Taveira Mendes, Ana Carolinne Mendes Facure e outro integrante da família identificado pelas iniciais M.L.T.M., que é menor de idade.

 

Conforme a investigação, o GS Heritage controlava o 5M Capital FIP, fundo que anteriormente detinha participação na Parecis Bioenergia. Para a PF, a sequência de operações teria criado uma ligação entre os valores provenientes do acordo e empresas relacionadas ao grupo familiar do ex-governador.

 

“Quanto ao núcleo, em tese ligado ao investigado Mauro Mendes, associado à denominada ‘cascata Royal Capital FIDC’, os fortes indícios indicam que parte dos valores oriundos do acordo transitou pela Royal Capital, seguindo para a Zurich FIM e, por fim, para a London FIP. Esta última comprou participações societárias na empresa Parecis Bioenergia pertencentes ao fundo 5M Capital, controlado pela família Mendes por intermédio da GS Heritage, o que teria viabilizado a transferência do dinheiro público para o patrimônio privado da família do ex-governador, sob a aparência de uma transação societária lícita”, diz trecho da decisão.

 

Já o Lotte World FIDC, que teria recebido aproximadamente R$ 154 milhões, tinha como cotista originário Fernando Robério de Borges Garcia, pai do deputado federal Fábio Garcia. A investigação aponta ainda a participação de Roberto Ferreira de Moura Braga Júnior, identificado como pessoa ligada à operação dos fundos e relacionada ao núcleo familiar do parlamentar.

 

Nesse caso, a PF cita uma sequência envolvendo o Lotte World FIDC, o Golden Bird FIDC, o Geonix 95 FIM e o Silver Bird FIDC. A suspeita dos investigadores é de que os fundos tenham sido utilizados para fragmentar o fluxo financeiro e direcionar recursos para investimentos privados.

 

“No que diz respeito ao núcleo composto por Fábio Garcia e Mauro Carvalho Júnior, associado à ‘cascata Lotte World FIDC’, a dinâmica identificada revela-se aparentemente bastante similar à observada no núcleo anteriormente descrito. Houve a constituição célere de fundos com aportes destinados à cobertura de custos operacionais, bem como a utilização de múltiplas camadas de fundos que investiam sucessivamente entre si, sem que os investigadores tenham identificado justificativa econômica para tais operações. Ao final desse percurso, o dinheiro público estava convertido em investimentos privados de baixa liquidez em empresas ligadas à família, tais como a Parecis Bioenergia e a Hotéis Global S.A.”, afirma a decisão.

 

A decisão também aponta um possível ponto de conexão entre as estruturas por meio do Venture Finance FIDC. De acordo com a investigação, o fundo tinha entre seus cotistas o GS Heritage FIP, ligado aos filhos de Mauro Mendes, e o Coliseu FIC FIDC, relacionado a integrantes da família de Fábio Garcia. Por meio dessa estrutura, teriam circulado cerca de R$ 33 milhões.

 

Além das conexões familiares e empresariais, a operação também alcançou integrantes do núcleo jurídico que participaram da formalização do acordo. Entre eles estão o desembargador Ricardo Gomes de Almeida, que à época atuava como advogado e representava a empresa cessionária do crédito da Oi; o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Ulisses Rabaneda dos Santos; e o advogado Luiz Alberto Derze Villalba Carneiro.

 

A investigação também cita integrantes da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), entre eles o procurador-geral Francisco de Assis da Silva Lopes, além dos procuradores Luis Otávio Trovo Marques de Souza, Diego Marques Santana Miyoshi e Leonardo Vieira de Souza, responsáveis por análises e pareceres relacionados ao acordo.

 

Segundo a PF, os fundos investigados não apresentavam características comuns de veículos tradicionais de investimento e teriam sido estruturados principalmente para desempenhar funções específicas dentro do fluxo financeiro analisado. A decisão ressalta, contudo, que os elementos reunidos até o momento servem para justificar medidas cautelares e não representam antecipação de eventual responsabilização criminal dos investigados.

 

Veja os nomes citados na Operação Heritage

Agentes políticos e autoridades públicas

Mauro Mendes Ferreira – Ex-governador de Mato Grosso (2019-2026). Citado pela investigação como integrante do núcleo político.

Fábio Paulino Garcia – Deputado federal e ex-secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso. Apontado pela Polícia Federal como ligado à estrutura financeira investigada.

Ulisses Rabaneda dos Santos – Conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e advogado. Participou de atos relacionados à cessão do crédito e às negociações do acordo.

Ricardo Gomes de Almeida  – Desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). À época do acordo, atuava como advogado e era sócio do escritório responsável pela cessão do crédito.

Mauro Carvalho Júnior – Secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso.

Francisco de Assis da Silva Lopes – Procurador-geral do Estado de Mato Grosso.

Luis Otávio Trovo Marques de Souza – Procurador-geral adjunto do Estado de Mato Grosso. 

Diego Marques Santana Miyoshi – Procurador do Estado de Mato Grosso.

Leonardo Vieira de Souza – Procurador do Estado de Mato Grosso.

Familiares e pessoas físicas relacionadas

Luis Antônio Taveira Mendes – Filho do ex-governador Mauro Mendes. Apontado como cotista de fundo citado na investigação.

Ana Carolinne Mendes Facure – Filha do ex-governador Mauro Mendes. Apontada como cotista de fundo citado na investigação.

M.L.T.M. – Filha do ex-governador Mauro Mendes. Identificada pelas iniciais por ser menor de idade; aparece como cotista de fundo citado na investigação.

Virginia Raquel Taveira e Silva Mendes Ferreira – Ex-primeira-dama de Mato Grosso e candidata a deputada federal. 

Fernando Robério de Borges Garcia – Empresário e pai do deputado Fábio Garcia. Apontado como cotista de fundo citado na investigação.

Carlos Antônio Borges Garcia – Empresário e tio do deputado Fábio Garcia. Citado na investigação.

Roberto Ferreira de Moura Braga Júnior – Empresário. Apontado pela investigação como ligado à operação de fundos relacionados ao núcleo familiar de Fábio Garcia.

Luiz Alberto Derze Villalba Carneiro – Advogado. Representante da sociedade cessionária do crédito.

Christiano Alexandre Gonçalves de Souza

Fabiola Paulino Garcia Pereira Cardoso – Subprocuradora-geral da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e irmã do deputado federal Fábio Garcia. 

Laura Paulino Garcia – empresária e mãe do deputado Fábio Garcia. Relacionada a fundo citado na investigação.

Camilla Padilla de Borbon Novis Neves Carvalho Arruda – Filha do secretário da Casa Civil, Mauro Carvalho. 

Isabelle Regina Padilla de Borbon Novis Neves Carvalho Maluf – Filha do secretário da Casa Civil, Mauro Carvalho. 

 Monica Padilla de Borbon Neves Carvalho –  Esposa do secretário da Casa Civil, Mauro Carvalho.

Hélio Palma de Arruda – Empresário, genro de Mauro Carvalho e esposo de Camilla. 

Outros citados Adriano Coutinho de Aquino

  Cristiane Barreto Sales

Janaína Carvalho Martins – Citada como testemunha ou signatária.

Ana Letycia de Figueiredo Nunes Almeida – Citada na investigação. Francisca Jaksandra de Souza

Hilário Renato Piccini – Ligado ao Grupo Piccini Joci Piccini – Ligada ao Grupo Piccini

Rodrigo Vechiato da Silveira

André Luiz de Paula Carvalho Ana Cristina Guerreiro Bezerra

 

Fernando Silva Herrera

Fernando Luiz de Senna Figueiredo

Gustavo Dantas Falcin

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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