
Longe do estereótipo que associa a chegada aos 60 anos exclusivamente à aposentadoria, uma parcela crescente da população sênior assume o protagonismo econômico. Impulsionados pela busca por autonomia, pelo combate ao etarismo e pelo desejo de continuar produzindo, os chamados “empreendedores prateados” encontram um cenário promissor no estado, que reúne 338.784 empresas ativas e 287.479 Microempreendedores Individuais (MEI’s), segundo a Junta Comercial do Estado de Mato Grosso (Jucemat), onde a bagagem dos mais velhos se torna o grande diferencial para a longevidade dos negócios.
Em nível nacional, o Brasil contabiliza cerca de 4,5 milhões de donos de negócios com 60 anos ou mais, segundo o Sebrae e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em um crescimento superior a 58% na última década. Em Mato Grosso, no recorte a partir dos 45 anos, já são mais de 129 mil empreendedores (26% do total formalizado). Mas esse movimento vai além da renda, uma vez que a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor revela que quase 63% dos brasileiros entre 65 e 74 anos empreendem por oportunidade, em busca de propósito e realização pessoal, e não apenas por necessidade.
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A trajetória da mestre em Educação, escritora e mentora Maria Amélia Ramos, 75, resume esse espírito de reinvenção. Após se aposentar no serviço público formal aos 56 anos, ela conta que a inatividade durou pouco.
“Eu comecei em 2006, quando me aposentei. Fiquei 17 dias aposentada e isso já faz 20 anos. Nunca mais parei de trabalhar. Peguei logo um segundo emprego e fui me lançando em novos desafios”, relembra Maria Amélia ao .
Com passagens pelo Ministério da Educação e pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc), o fim de seu último contrato em 2020 foi o empurrão que faltava para criar o próprio negócio. No isolamento da pandemia, ela desenvolveu o projeto “Refletindo, agindo e mudando sua vida”, que impactou mais de 500 famílias vulneráveis, deu origem ao livro “A chave da mudança” (2024) e abriu portas para suas mentorias, palestras e o projeto “Mulheres em Movimento”.
Para Maria Amélia, incentivar o empreendedorismo na maturidade é mostrar que o trabalho nessa fase une satisfação, utilidade social e retorno financeiro.
“Para mim não é um passatempo. O diferencial é a alegria de ver a transformação de outra pessoa. A maior trava é a insegurança e o medo de não dar certo. A gente precisa se reinventar porque, muitas vezes, passa a vida trabalhando e não descobre uma habilidade ligada ao seu propósito que pode trazer renda extra, alegria e satisfação”, argumenta.
Essa experiência prática do público sênior ganha ainda mais relevância quando observados os dados de mortalidade das empresas em MT. Embora a Jucemat mostre um ritmo forte de aberturas, como os 7.493 novos negócios e 23.797 MEIs registrados apenas no 3.º quadrimestre de 2025, o estado também viu o encerramento de atividades saltar de 21 mil no início da década para 55 mil no ano passado.
É justamente nessa alta rotatividade que a maturidade dos empreendedores se destaca, já que dados do Sebrae apontam que 58% dos negócios comandados por pessoas 60+ no estado ultrapassam 10 anos de funcionamento. O número revela alta resiliência, superando a média do mercado tradicional, no qual a maior taxa de mortalidade dos novos negócios ocorre justamente nos primeiros 2 a 5 anos de atividade.
Para quem deseja vencer a insegurança e empreender na terceira idade, Maria Amélia reforça que o segredo do sucesso está no preparo e na humildade para aprender.
“A pessoa tem que saber o que quer e buscar conhecimento. Não é só comprar o equipamento e ir para a rua. É pesquisar custos, fornecedores, licenças e buscar ajuda de quem tem experiência”, orienta a palestrante.
Aos 75 anos, com uma rotina ativa entre mentorias, exercícios e lazer, ela deixa um convite final ao incentivo e à persistência.
“Digo para nunca pararem de tentar e persistirem até conseguirem. Não desistam daquilo que vocês começaram. Tenha foco, fé, resiliência e persistência até dar certo”, conclui.

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