
Que crônica maravilhosa! O ritmo do fluxo de consciência — que vai do pânico prático à paranoia hilária e termina em uma autocrítica literária — é excelente. Você constrói a ansiedade de um jeito que é, ao mesmo tempo, muito real e muito cômico.
Como você já tinha me mandado o finalzinho antes, aqui está o texto completo, alinhado e revisado. Mantive o tom ágil, informal e fluido do seu pensamento, apenas ajustando pequenas concordâncias, pontuações e espaçamentos para a leitura ficar perfeita.
Fiquei presa no elevador ontem. Foi meio rápido. Rápido nível telefonema da Vivo ou da Claro, rápido nível sala de espera de médico, rápido nível podcast curto: 17 minutos. Mas não rápido para o padrão “fiquei presa no elevador”. Durou uma vida.
Lá pelo primeiro minuto e meio, já quase hiperventilando, acionei a otimista em mim e disse, dentro da cabeça: “Poderia ser pior. E se eu estivesse com o vizinho fedido? Ou com a vizinha falante — que sabe meu nome mesmo que eu não saiba o dela e, toda vez que a gente se encontra, sinto culpa por me comportar como alguém que sequer lembra em que circunstância nos conhecemos? Tem também o zelador, que me dá um medinho/agonia; ou alguém que falasse outra língua; ou ainda alguém que tivesse pavor de elevador, ou que estivesse comendo uma goiaba; ou se fosse em um dia de recorde de temperaturas altas; ou muito tarde da noite, quando os técnicos de elevadores já se recolheram para dormir; ou vai que o espelho estivesse coberto e eu ficasse muito claustrofóbica? E olha só, nada disso aconteceu, estou lindamente sozinha”.
Foi quando me dei conta: “Meu Jesus, tô sozinha”.
“E faz uns seis meses que não encontro o vizinho fedido, será que ele morreu? A alma tá aqui comigo. E a falante é Elisângela, quase certeza. Elisângela… Eu vou morrer e nunca vou ter chamado a Elisângela pelo nome. Se ela estivesse aqui, quem sabe a parte do ‘Ângela’, uma coisa assim meio angelical, poderia nos salvar? E o zelador saberia o que fazer; e o gringo poderia me abraçar; e parece que eu tenho pânico de elevador; e tô com fome; e tá frio; e, no horário comercial, os técnicos de elevador devem estar ocupadíssimos; e essa luz branca me deixa horrorosa no espelho”. Hiperventilei.
Seu Jair, o zelador, falou na caixinha de som, aqueles buracos embaixo dos números:
— Ô, dona Roberta, não é nada demais, pode ficar tranquila que já acionamos a Otis.
Eu respondi que “ok”, talvez por causa do gringo imaginário. Ele completou:
— Pode deixar que estamos te vendo aqui da câmera.
Eu olhei para a câmera e acenei, meio que como quem se despede da vida. Aí pensei no vídeo do elevador passando no Fantástico e arrumei o cabelo em uma trança. Ficou péssimo. Depois fiquei péssima por ter lembrado do Fantástico. Primeiro porque tenho horror ao programa, e segundo porque nunca fiz nada de tão fantástico na vida para que minha morte lenta e trágica passasse lá.
Até que decidi que esse era o momento ideal para escrever meu romance definitivo, para que, pelo menos ele, um dia pudesse aparecer no Fantástico com uma nota não menos fantástica na contracapa, contando como foi escrito em tempo recorde enquanto eu definhava de frio, fome, solidão e medo em um elevador da Avenida Angélica.
Levei quinze minutos e meio para concluir o primeiro parágrafo. O técnico da Otis nem precisou vir; seu Jair resolveu remotamente.
Hoje, encontrei a Elisângela na saída para o consultório e fiz questão de contar a ela a minha aventura. Ela ouviu desinteressada e deixou muito claro que se chama Helvética. Sim, o primeiro parágrafo não presta para nada. E, afinal, quem põe o nome da filha de Helvética?
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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