
Duas confeiteiras de Cuiabá transformaram a necessidade de adaptação alimentar, após diagnósticos médicos, em oportunidade de renda e de segurança para outras pessoas. Com estudo, consultoria e qualificação, reformularam receitas e criaram cardápios voltados para pessoas com alergias, intolerâncias e restrições alimentares, abrindo caminho para o empreendedorismo especializado e fidelizando clientes.
Conforme a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), cerca de 10% da população brasileira possui algum tipo de alergia alimentar, sendo que 8% são crianças e 2% são adultos, entre eles, Camila Taurines Ocampos, 29, proprietária do Taurines Espetos, no bairro Poção.
Formada em Ciência dos Alimentos e Gastronomia, atuava como confeiteira quando recebeu o diagnóstico de doença celíaca, uma condição autoimune em que o sistema imunológico ataca o próprio intestino delgado ao ingerir glúten, uma proteína encontrada no trigo, cevada, centeio e aveia contaminada.
Por isso, trabalhar na confeitaria, naquele momento, ficou inviável. “Eu precisei adaptar meu sonho à minha realidade. Foi uma fase difícil, porque tive que abrir mão da confeitaria, mas também foi quando comecei a enxergar as necessidades de tantas outras pessoas que convivem com restrições alimentares”, relata.
Na busca por se adaptar às imposições da doença, Camila percebeu que muitos celíacos também tinham intolerância à proteína do leite. Foi aí que ela pensou em um espaço seguro para atender pessoas com alergias e intolerâncias, mas, ao mesmo tempo, atrair vários públicos. Sendo assim, ela apostou em um produto popular: o espetinho.
“Queria mostrar que uma alimentação inclusiva não precisa ser algo caro ou distante da realidade das pessoas. O espetinho reúne famílias e amigos e pode ser adaptado sem perder sabor e qualidade”, argumenta.
A formação acadêmica em Ciência dos Alimentos e Gastronomia ajudou na construção do projeto, mas a empreendedora também buscou capacitação por meio de cursos e consultorias especializadas, incluindo o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Taurines
“O Sebrae é muito importante, me deu um horizonte mais específico para a área, em questão de estudo de demanda, de público-alvo, então eles ajudam muito em relação a isso”, lembra.
No estudo, ela buscou fornecedores, analisou ficha técnica dos produtos e detalhes sobre cada ingrediente. O maquinário e os utensílios também foram adquiridos pensando em evitar qualquer risco de contaminação cruzada.
“Foi um desafio financeiro importante, porque tudo teve que ser comprado do zero. Mas, para oferecer segurança alimentar, esse cuidado era indispensável”, afirma.
Depois de cinco anos, o Taurines Espetos abriu as portas. Desde então, a receptação tem sido positiva. O espaço passou a receber famílias inteiras. Uma vez na semana, Camila aposta em outros tipos de alimentos, como hambúrgueres. “Muitas pessoas têm medo de comer fora de casa por causa do risco de contaminação. Aqui elas encontram um ambiente onde podem se sentir seguras e incluídas”, destaca.
A empresária conta que criou uma relação próxima com os clientes, muitos deles frequentadores assíduos do local. “Conheço as histórias de muitas famílias. É gratificante ver crianças chegando felizes, chamando pelo meu nome e sabendo que podem comer sem preocupação. Esse carinho é o que me motiva todos os dias”, afirma.
Cuidado com afeto
Antes de se tornar um negócio consolidado, a Meu Doce Afeto nasceu em casa, a partir de uma necessidade familiar. A confeiteira empreendedora Ana Carolina Ferreira começou os primeiros passos da empresa após o marido ser diagnosticado com Doença de Crohn, que é uma Doença Inflamatória Intestinal (DII), crônica e autoimune. Segundo a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, ao menos 100 mil pessoas no Brasil vivem com uma DII.
Com o diagnóstico, a alimentação mudou e foi preciso retirar todos os ingredientes considerados inflamatórios, como leite e glúten. Diante da nova rotina, ela passou a estudar receitas e desenvolver alternativas adaptadas, que continuassem saborosas, mas seguras para pessoas com restrições.
A partir dessa realidade, ela decidiu transformar testes culinários em uma oportunidade de empreender. “Comecei a estudar, testar novas receitas, e ele, assim como familiares e amigos, sempre elogiava tudo. Resolvi começar a vender em feirinhas, pois, assim como meu marido, existiam muitas pessoas com restrições alimentares que tinham dificuldade em encontrar produtos caseiros, gostosos e seguros”, conta.
A produção, que começou para consumo próprio, ganhou maior proporção há dois anos. A ideia de transformar a produção caseira em negócio surgiu de forma espontânea. “Foi leve, natural e orgânico. Comecei produzindo para consumo próprio, amigos e familiares”, conta. Meu Doce Afeto
O sucesso inicial revelou uma demanda pouco atendida na cidade, o que impulsionou o crescimento da Meu Doce Afeto. Um dos principais obstáculos, segundo ela, foi tornar a confeitaria conhecida dentro do público, que é bastante rigoroso. “A divulgação da marca e o reconhecimento dela nesta comunidade seleta e extremamente exigente foram os maiores desafios”, afirma.
Sem recorrer a consultorias, Ana construiu o negócio baseada em pesquisas, dedicação e experiência cotidiana. A proposta da Meu Doce Afeto é oferecer produtos totalmente seguros. “Na nossa casa necessitamos da ausência de leite e glúten, bem como os nossos clientes. Nossa cozinha é controlada para uma produção sem riscos de contaminação cruzada”, garante.
O diferencial, segundo ela, vai além do sabor. É proporcionar tranquilidade para quem convive com as restrições, em que o indivíduo pode comer sem se preocupar em passar mal. Por isso, esses produtos são uma questão de necessidade e respeito ao consumidor.
“Para pessoas que não possuem restrição, pode ser difícil de entender, mas, para as que convivem com isso diariamente, é uma questão vital. Alergias e intolerâncias não são frescura”, ressalta. Nos últimos anos, ela observou o crescimento na demanda pelos produtos.
Ana aponta que o acesso ao diagnóstico, hoje mais fácil de ser constatado, contribui para a atenção e busca de alternativas adequadas e que, apesar dos desafios do empreendedorismo artesanal, ela considera a trajetória gratificante. Nesse período, ela afirma ter desenvolvido habilidades importantes para a gestão do negócio. “Melhorei muito minha comunicação e aprendi a me adaptar melhor às mudanças. Me tornei uma pessoa mais organizada e persistente”, avalia.
Apesar de já ter pensado em desistir, e de que, como toda mulher moderna, conciliar as demandas da empresa com a rotina doméstica ainda é um peso. Mas, “a paixão pelo trabalho e a flexibilidade da atividade ajudam a seguir em frente”. O crescimento da Meu Doce Afeto também é motivo de orgulho.
Atualmente, cerca de 80% das vendas são destinadas a clientes fixos ou que chegam por indicação, enquanto os outros 20% são resultado das divulgações online.
Meu Doce Afeto
Entre os diversos retornos recebidos ao longo da trajetória, um episódio permanece marcado em sua memória. Uma mãe procurou a confeitaria para comprar o bolo de aniversário da filha alérgica, que até então nunca havia participado plenamente das comemorações familiares. “Ela me mandou um vídeo da filha pulando de alegria e comendo com a maior vontade do mundo. Como era alérgica, a família sempre comprava um bolo tradicional para a maioria dos convidados, e ela acabava não participando. Foi muito emocionante”, lembra.
Para Ana Carolina, histórias como essa reforçam o propósito da Meu Doce Afeto e mostram que é possível unir sabor, saúde e inclusão em um mesmo produto. “Me sinto imensamente feliz e grata, pois saúde, sabor e segurança, quando você quer, é possível, sim, caminharem juntas”, conclui.
Mulheres donas dos seus próprios negócios
O Sebrae Mato Grosso tem sido um aliado das empreendedoras. Uma das iniciativas é o programa Sebrae Delas, criado para fortalecer o empreendedorismo feminino por meio de capacitações, mentorias e encontros voltados ao desenvolvimento de negócios liderados por mulheres.
Pesquisa divulgada pelo órgão em 2026 aponta um crescimento de 20% no número de mulheres empreendedoras em Mato Grosso. A coordenadora da Agência Sebrae Cuiabá, Inajara Amorim, aponta que o resultado mostra um equilíbrio entre os principais fatores que levam as mulheres a abrir o próprio negócio.
“Existe praticamente um empate técnico. Enquanto 40,1% das mulheres afirmam que empreenderam porque identificaram uma oportunidade, outras 40% apontam a necessidade financeira como principal motivação para iniciar um negócio”, explica.
Segundo ela, muitas enxergam uma oportunidade no mercado e encontram no empreendedorismo uma alternativa financeira, mas também há quem busque mais autonomia para conduzir a própria vida profissional.
“O Sebrae entende que as mulheres enfrentam desafios próprios quando decidem empreender. Muitas vezes essas dificuldades não são visíveis, mas impactam diretamente a gestão do negócio. Por isso, oferecemos consultorias e atendimentos com um olhar voltado para a realidade feminina”.
Inajara ressalta que o empreendedorismo feminino se fortalece não apenas no acesso e capacitação, mas também na construção de espaços que valorizam as trajetórias e os desafios.
“Quando a mulher encontra apoio, orientação e uma rede de relacionamento sólida, ela consegue desenvolver seu negócio com mais segurança e ampliar suas oportunidades de crescimento”, conclui.

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