
Minha última analisanda da sexta-feira disse que está assistindo a uma novela de IA. Eu perguntei como era. “Bobeira”, ela respondeu. “Conta, pode contar”, eu insisti. É que assuntos não surgem assim do nada, sem puxar algum fiozinho em uma sessão de análise. Nem na análise, nem em lugar nenhum. Soltou um “ah, é bobeira”, já me deixou 100% interessada.
Ela contou. É uma coisa meio novela mexicana: desencontros amorosos, traições, disputas de poder e herança, vilões interesseiros, mocinhos ingênuos, o núcleo rico, o núcleo pobre, o núcleo cômico. Todo mundo joiado, chapéus e ternos, vestidos ao vento, drinks no meio da tarde, nomes compostos. Aquela receita que a gente conhece. Só tem uma coisinha: os “atores” (assim entre aspas, porque é IA) são legumes.
Minha gente, eu achei isso fantástico. Ela contou, mas já esqueci quem era quem. Na minha cabeça, independente da trama, estou do lado da abóbora, melhor legume que existe. Batatas (especialmente as doces), cenouras e macaxeiras contam de cara com a minha simpatia. Já chuchus, pimentões, nabos e repolhos (e aqui eu incluiria a couve-flor, mas fiquei na dúvida quanto ao plural) não quero nem saber a que núcleo pertencem, já estou torcendo contra.
Inspirada nesta abobrinha, criei uma série de novos personagens da área da gastronomia para a próxima temporada. Que tal: um damasco dramático que se chama Dramástico; uma melancia com cólica que, com o tempo, tornou-se melancólica; Fi, um milho com mil filhos; ou até um alho que cometeu um ato-falho. Não?
Tá, eu tento de novo: Jiló, o xodó do xilindró; uma uva de luva que não pode pegar chuva; uma ameixa que ama fazer queixa. Eita, queixa me lembrou outra: um queijo do Alentejo querendo um beijo. Ui, desculpa, parei.
Boa semana, quiabos.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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