
Em uma sociedade cada vez mais acelerada e digital, gestos simples de carinho têm se tornado menos frequentes. Celebrado em 22 de maio, o Dia do Abraço levanta um debate sobre a dificuldade crescente das pessoas em lidar com demonstrações físicas de afeto, como abraços, toques e proximidade emocional.
Embora o contato físico saudável esteja diretamente ligado ao bem-estar emocional, especialistas observam que ansiedade, estresse, traumas emocionais, excesso de interações digitais e até os impactos deixados pela pandemia mudaram a forma como muitos indivíduos se relacionam com o toque.
Segundo a psicóloga Cristiane Bianchi, o abraço possui efeitos emocionais e fisiológicos importantes. “Quando somos abraçados de forma sincera e segura, o corpo libera substâncias como ocitocina, serotonina e dopamina, hormônios ligados à sensação de pertencimento, segurança, conexão e bem-estar”, explica.
Ela destaca que o toque saudável comunica acolhimento de maneira silenciosa. “Muitas vezes, o abraço transmite aquilo que as palavras não conseguem dizer: ‘você não está sozinho’, ‘você é importante’ e ‘você está seguro’”, afirma.
Apesar disso, o desconforto com demonstrações de afeto tem se tornado cada vez mais comum. De acordo com a especialista, muitas pessoas associam proximidade emocional à vulnerabilidade, rejeição ou dor emocional.
“Vivemos uma geração emocionalmente cansada, acelerada e desconectada de si mesma. Pessoas que cresceram em ambientes frios emocionalmente, ou que viveram rejeição, abandono e até abuso, podem desenvolver bloqueios em relação ao contato físico”, pontua.
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Cristiane ressalta ainda que algumas pessoas utilizam a distância emocional e física como mecanismo de proteção. “Nem sempre a falta de afeto significa falta de sentimento. Às vezes, significa excesso de proteção emocional”, observa.
Outro fator apontado como decisivo foi a pandemia da covid-19. Segundo ela, o período alterou profundamente a forma como o toque passou a ser percebido socialmente.
“Durante muito tempo, abraçar alguém passou a representar risco e perigo. Muitas pessoas se acostumaram ao isolamento, criaram barreiras emocionais e desaprenderam formas naturais de conexão presencial”, relata.
Além disso, o excesso de interações digitais também contribui para relações mais superficiais. Embora as redes sociais aproximem a comunicação, elas não substituem a presença emocional genuína.
“Hoje muitas pessoas conversam o dia inteiro online, mas continuam se sentindo sozinhas. Recebem mensagens, mas não se sentem vistas. Tem milhares de interações, mas pouca conexão verdadeira”, explica.
A especialista alerta que o corpo também reage ao esgotamento emocional. Em situações de ansiedade intensa e estresse, o organismo entra em estado de defesa, fazendo com que algumas pessoas evitem toque, proximidade e convivência.
“Um corpo emocionalmente sobrecarregado tende a se proteger. Mas um abraço sincero, seguro e acolhedor pode ajudar a diminuir tensões emocionais profundas. Às vezes, o que a pessoa mais precisa não é de conselho, mas de presença real”, conclui.

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