Predadores sexuais capturam os sonhos para destruir vidas

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Eles não são apenas predadores sexuais e criminosos em série. Os ‘professores’ das escolinhas de futebol, que usam do poder e autoridade sobre crianças e adolescentes para cometer abusos, são considerados verdadeiros ladrões de sonhos. A segunda reportagem da série Arquivo Laranja destaca os cinco maiores predadores sexuais da história recente de Mato Grosso, que agiram nos campos de várzea contra dezenas de meninos que sonhavam em se tornar jogadores de futebol, conquistar fama e dinheiro para ajudar as famílias humildes. As penas dos cinco superam 248 anos de prisão.

 

O primeiro é Júlio Cesar Patini, 62, que desde junho de 2025 compre pena de 60 anos de prisão pelos crimes praticados desde a década de 90, mas que só passaram a ser investigados a partir de 2013, quando foram formalizadas as primeiras denúncias. De acordo com o policial civil Darimar Aguiar, Patini é com, certeza, o maior pedófilo que atuou no meio esportivo da Capital e pelo período mais longo, fazendo incontáveis vítimas. Darimar, que atuou nas investigações pela Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança (Deddica), assegura que o abusador não só roubou sonhos, mas destruiu vidas por ser um dos mais perversos.

 

Bastante conhecido na cidade, Patini e o parceiro e braço direito Gesiel Gomes, arregimentavam todos os anos dezenas de meninos, crianças e adolescentes, para treinamento em sua escola de futebol com proposta de levá-los ao auge da carreira, com a inclusão em times de renome nacional. Além dos treinos, os meninos de famílias pobres ganhavam as viagens para outros estados e uniformes.

 

Mas, por trás da proposta tentadora, havia sofrimento e dor por parte de muitas crianças que, distantes das famílias, precisaram se submeter aos abusos sexuais e até a prostituição para receberem um prato de comida.

 

Relatos cruéis de intimidação e violência física e psicológica do abusador chocaram os policiais. Darimar cita um dos que o marcou profundamente, de um garoto que sonhava em ser um grande jogador, mas que, em razão da série de abusos sofridos, ficou depressivo, passou a usar entorpecentes e acabou entrando para o mundo do crime, quando foi assassinado. Tenho certeza de que esta morte precoce tem relação direta com o sofrimento do menino que, por anos, foi molestado e não conseguiu superar a dor.

 

O investigador relata que o silêncio das vítimas era garantido com ameaças severas de que se o professor fosse denunciado, a carreira como jogador de futebol não teria qualquer chance.

 

Gesiel, parceiro de Patini, foi condenado recentemente a 44 anos de prisão pelo abuso e exploração sexual de duas vítimas. Ainda responde outras ações.

 

Liberdade negada

Desde o ano passado, Patini tenta na Justiça a prisão domiciliar humanitária. O pedido foi negado, pela última vez, no dia 24 de abril, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Conforme a defesa, ele sofre de doença renal crônica em estágio terminal, depende de sessões de hemodiálise três vezes por semana e está correndo risco iminente de morte. O recurso, agora, aguarda informações do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e parecer do Ministério Público Federal. Somente após essas etapas, o STJ julgará o mérito do pedido.

 

Comprimidos azuis

O terceiro abusador é Clemente Borges Aranha, 38, condenado a 30 anos de reclusão em três processos. Segundo o promotor de Justiça Rinaldo Segundo, as investigações mostram que o treinador utilizava artifícios sórdidos, como a aplicação de géis e o fornecimento de comprimidos azuis, descritos como suplementos para ganho de massa muscular, justificando contatos físicos indevidos como avaliações físicas. Durante viagens ou visitas à sua residência no bairro Doutor Fábio, Clemente determinava que os menores apagassem mensagens de seus celulares e fazia ameaças psicológicas, afirmando que, caso os fatos fossem revelados, os jovens não teriam chances no futebol profissional e que ele, se preso, voltaria ainda mais perigoso.

 

A apuração revelou que o acusado solicitava aos alunos adolescentes o envio de fotos e vídeos íntimos – incluindo imagens de nudez e de masturbação. Alegava tratar-se de procedimento necessário a uma suposta avaliação física e à prescrição de suplementos para melhoria do desempenho esportivo. A Polícia Civil identificou pelo menos cinco vítimas, todas do sexo masculino e com idades entre 14 e 16 anos.

 

Não só na capital

O quarto é Felipe Mendes da Silva Borges, 39, investigado desde 2021, quando tatuou no peito a imagem de uma de suas vítimas. Foi preso em setembro de 2024, no aeroporto Marechal Rondon, ao retornar de viagem com atletas. Ele foi condenado a mais de 83 anos de reclusão. Já são duas condenações em dois processos com cinco vítimas. As vítimas eram abusadas durante as viagens e um dos relatos mostra que um adolescente de 13 anos foi estuprado por Felipe, que filmou o ato e compartilhou em grupos de whatsapp.

 

Da cidade de Comodoro (644 km a oeste) vem o último pedófilo da série. Rand Wendy Cordeiro da Silva, 32, é condenado por abusos sexuais de pelo menos 10 crianças com idades entre 10 e 13 anos. Ele foi preso em outubro de 2024. As vítimas relataram os atos libidinosos e que o professor usava de sua autoridade e do sonho das crianças, além da promessa de encaminhar o aluno a grandes clubes do Brasil, para cometer os crimes. A pena de 31 anos e nove meses de reclusão foi reduzida pelo Tribunal de Justiça, em abril, para 25 anos.

 

Prevenção

Promotor Rinaldo Segundo afirma que existem formas dos pais prevenirem esse tipo de crime, acompanhando de perto a participação dos filhos nos projetos sociais ou mesmo nas escolinhas de futebol. Manter sempre um diálogo aberto com a criança, orientando que de forma alguma seu corpo pode ser tocado por estranhos. Explicar que nenhum sonho está acima da integridade sexual e que é errado. Se isso ocorrer, a criança precisa contar aos pais.

 

Caso o abuso já tenha acontecido, a vítima precisa ser acolhida e saber que não é culpada do abuso. De acordo com o promotor, os crimes de estupro de vulnerável ocorrem, em sua maioria, com meninas, que tem mais facilidade em denunciar o abusador. Já com as vítimas masculinas a dificuldade na investigação é muito maior, já que nem a vítima, nem familiares, desejam denunciar o crime, temendo que isso possa comprometer a virilidade da vítima.

 

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Link da Matéria – via Gazeta Digital

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