Gestão da frustração

Imagem

Rodinei Crescêncio

Há algo de profundamente novo e inquietante na política brasileira contemporânea. Não se trata mais apenas de polarização, radicalização ou crise institucional. O que se desenha, de forma cada vez mais nítida, é um fenômeno mais silencioso: a substituição dos projetos de país por uma gestão contínua de expectativas frustradas, agora amplificada pela lógica da internet.

Durante décadas, a política brasileira, com todas as suas limitações, ainda operava sob grandes narrativas. À esquerda, a promessa de transformação social. À direita, o discurso da ordem e da eficiência. Havia divergência, mas havia horizonte. Governar era, ao menos em tese, conduzir o país em direção a um futuro imaginado.

Hoje, esse horizonte parece ter desaparecido. E a internet não apenas acompanha esse processo, ela o intensifica.

As redes digitais transformaram a forma como o cidadão participa da política. Se antes a mediação se dava por partidos, sindicatos, imprensa ou movimentos organizados, agora ela ocorre de forma fragmentada, imediata e emocional. O cidadão não precisa mais de estruturas coletivas para se manifestar: comenta, compartilha, reage, cancela. Participa, mas de um modo distinto. “ Não importa apenas o que o governo faz, mas como isso circula, é interpretado e ressignificado nas redes. Indicadores econômicos positivos podem ser anulados por uma narrativa negativa bem-sucedida. Crises pontuais podem ganhar dimensão estrutural. A realidade concreta perde espaço para a realidade percebida e essa percepção é moldada, em larga medida, pelo ecossistema digital”

Essa nova participação, embora mais acessível, é também mais volátil. Não se constrói, necessariamente, em torno de projetos duradouros, mas de pautas momentâneas, indignações episódicas e ciclos curtos de atenção. A política, nesse ambiente, passa a responder menos a programas estruturados e mais a ondas de percepção que surgem e desaparecem em questão de dias, às vezes horas.

É nesse ponto que a gestão de expectativas encontra seu terreno ideal.

Não importa apenas o que o governo faz, mas como isso circula, é interpretado e ressignificado nas redes. Indicadores econômicos positivos podem ser anulados por uma narrativa negativa bem-sucedida. Crises pontuais podem ganhar dimensão estrutural. A realidade concreta perde espaço para a realidade percebida e essa percepção é moldada, em larga medida, pelo ecossistema digital.

Ao mesmo tempo, a lógica algorítmica reforça esse cenário. Conteúdos que geram engajamento, frequentemente os mais emocionais, polarizados ou simplificados, tendem a prevalecer. O debate público se reorganiza não em torno da complexidade dos problemas, mas da capacidade de capturar atenção. E projetos de longo prazo, por definição mais densos e menos “virais”, perdem espaço para narrativas rápidas e facilmente consumíveis.

O resultado é uma política cada vez mais reativa. Governos monitoram tendências, respondem a crises digitais, ajustam discursos em tempo real. O horizonte estratégico cede lugar à sobrevivência narrativa. Já não se governa apenas para a realidade, governa-se para o feed.

Nesse contexto, o esvaziamento das grandes narrativas se aprofunda. Não apenas porque os atores políticos deixaram de formulá-las, mas porque o ambiente em que elas deveriam circular se tornou pouco propício à sua sustentação. Narrativas exigem tempo, coerência e construção coletiva, elementos escassos em uma esfera pública mediada por cliques, impulsos e algoritmos.

O eleitor, por sua vez, também se transforma. Mais informado, mas não necessariamente mais orientado. Mais participativo, mas menos organizado. Oscila entre engajamento intenso e desmobilização rápida. Vota, muitas vezes, sob o impacto de percepções imediatas, reforçando o ciclo de curto prazo que o frustra.

O paradoxo se torna ainda mais evidente: nunca se participou tanto da política, e talvez nunca se tenha construído tão pouco em termos de projeto coletivo.

A internet democratizou a voz, mas fragmentou o sentido. Ampliou a participação, mas enfraqueceu a direção. E, ao fazê-lo, tornou-se não apenas um meio de expressão política, mas um elemento central na transformação da própria política em gestão de expectativas.

O risco, mais uma vez, é a naturalização. Quando a política se adapta integralmente à lógica do imediato e a sociedade passa a experimentar o futuro apenas como uma extensão instável do presente, o país entra em uma estabilidade precária: nada colapsa, mas nada avança.

Talvez o maior desafio da política brasileira hoje não seja apenas reconstruir projetos de país. Seja, antes disso, reconstruir as condições para que esses projetos possam existir e sobreviver em um mundo onde a política acontece, cada vez mais, em tempo real.

Porque, no fim, não há algoritmo capaz de substituir um horizonte coletivo.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

Link da Matéria – via RD News

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*