
Rodinei Crescêncio
O câncer de mama é o tipo que mais acomete as mulheres brasileiras, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Apesar de um alto índice de mortalidade, a doença tem ganhado cada vez mais tratamentos com maior eficácia. Em entrevista ao , o médico mastologista Luciano Florisbelo traz uma perspectiva sobre os avanços nos diferentes tratamentos, com um maior arsenal de medicamentos e uma quimioterapia cada vez mais assertiva. Conforme o especialista, estudos apontam que as novas tecnologias podem proporcionar no futuro uma quimioterapia sem efeitos colaterais e menos dolorosa e que a Inteligência Artificial poderá auxiliar no diagnóstico de um tumor anos antes de ele se desenvolver.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista
***
O câncer, por muito tempo, vinha associado a uma sentença de morte, o que hoje, com a modernização e novos tratamentos, vem mudando. Quais são os principais avanços no tratamento da doença hoje?
Eu estou há 23 anos tratando mulheres com câncer de mama. Nessa época, o tratamento era muito simples: era retirada a mama e feita a retirada total dos linfonodos das ínguas embaixo do braço, havia quatro ou cinco medicamentos que a gente utilizava. Os quimioterápicos tinham grandes efeitos colaterais e muitas vezes não tínhamos o resultado que temos hoje. Hoje as mulheres que tem câncer de mama passam por processos cirúrgicos menos agressivos, não há necessidade de tirar a mama na maioria dos casos, só tira quando o tumor já está em uma fase mais avançada ou quando a paciente não respondeu bem à quimioterapia. Já a retirada dos gânglios embaixo do braço, hoje praticamente já não fazemos o esvaziamento total.
Rodinei Crescêncio
Podemos dizer que a quimioterapia hoje tem resultados mais assertivos? “ Em um futuro não muito longe, vamos ter medicamentos que vão agir só na célula cancerígena. Ela não vai agir no seu corpo como um todo”
Sim, antes, eram quatro, cinco drogas ou quimioterápicos que nós tínhamos. Hoje nós temos um arsenal de mais de 30 medicamentos utilizados. Para cada tipo de câncer de mama, é utilizado um tipo de quimioterapia e a eficácia é muito maior. Hoje, o que é mais importante no tratamento do câncer de mama é justamente a quimioterapia. A cirurgia fica em segundo plano. Existem também o que a gente chama de imunoterapia, que identifica se a paciente tem alguma alteração no seu sistema imunológico. Nós temos o hormonioterapia, para aquelas mulheres que têm receptores hormonais positivos na mama, coisa que a gente não conseguia verificar no passado. Então, mudou muito nosso arsenal terapêutico.
E existem perspectivas futuras de que essa quimioterapia seja menos invasiva, já que hoje o processo é muito doloroso?
Sim. Os efeitos colaterais existem porque o quimioterápico sempre vai agir naquela célula que está multiplicando, crescendo. E nosso corpo tem várias células que estão se multiplicando, como cabelo, unha, ovário. Então, a gente ainda tem esse efeito colateral. O que está sendo feito? A gente está criando anticorpos Agora, estão criando os anticorpos monoclonais, que são substâncias que serão acopladas ao medicamento que a gente usa na quimioterapia. Ele age especificamente na célula tumoral. Então, cada vez mais as pesquisas estão indo para esse lado, para que se façam cada vez mais medicamentos específicos que atinjam apenas o tumor. Em um futuro não muito longe, vamos ter medicamentos que vão agir só na célula cancerígena. Ela não vai agir no seu corpo como um todo. Dessa forma, não teremos efeitos colaterais. Não teria queda de cabelo, fraqueza, já que tudo isso acontece pois o quimioterápico está agindo também contra você, ele não vai só no tumor, ele age no corpo inteiro, diminui a produção de células do sangue, porque agem na medula, então dá anemia, caem as plaquetas. O paciente fica com o sistema imunológico afetado, os leucócitos que fazem a defesa também diminuem.
Onde entra a radioterapia nesse processo?
O tratamento do câncer de mama é baseado em um tripé: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Toda paciente que não tirou a mama como um todo tem que fazer radioterapia. A função da radioterapia é evitar que o tumor volte na região da mama. Mulher que faz radioterapia tem 4% de chance do tumor voltar. Quem não radioterapia, ou tirou parcialmente o tumor e não faz rádio, a chance é de 14%. Então a função da radioterapia é justamente isso, controle local do câncer. “ A Inteligência Artificial vem mostrando que estudos acoplados a exames podem diagnosticar o câncer de mama três anos antes do tumor aparecer”
Agora, com a Inteligência Artificial (IA), os avanços também chegam na medicina. Como ela deve avançar esse tratamento?
Hoje a Inteligência Artificial vem mostrando que estudos acoplados aos exames que a gente já tem podem diagnosticar o câncer de mama três anos antes do tumor aparecer. A tecnologia está aí e tem nos ajudado. A parte de prevenção do câncer de mama tem cada vez melhorado mais.
Nesse caso o tratamento seria preventivo?
Justamente, o tratamento seria preventivo, identificar o problema antes de ele aparecer. A decodificação da genética está facilitando. Antes era muito caro fazer um mapeamento genético. Hoje está um pouco menos. Eu acredito também que futuramente vamos ter um mapeamento genético de cada um para as doenças mais prováveis que a gente possa desenvolver.
Então, com todo esse arsenal, podemos dizer que cada vez mais aumenta a chance de cura?
Sim, cada vez mais o ser humano aumenta essa chance de cura. Então, essa é a tendência, mesmo a gente convivendo com as doenças da modernidade, a expectativa de vida vai aumentar. Tem aumentado e vai aumentar cada vez mais.

Faça um comentário