Capacitismo não é falha, é escolha

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A cadeia do livro ainda opera sob um fluxo consolidado: produção, divulgação, comercialização e significação. Mas é na produção que se concentra o maior gargalo. O modelo editorial vigente permanece preso a uma lógica tradicional — escrita, editoração e diagramação — orientada por padrões normativos que ignoram as diferenças reais entre os sujeitos leitores.

Se pessoas com deficiência existem, sua presença em todas as esferas da sociedade não é inclusão — é o óbvio. Cultural, política, profissional. Até no direito de não produzir, de não performar, de apenas existir.

 

Nesse cenário, a acessibilidade surge como remendo. Um adendo. Um “depois a gente vê”. O livro acessível passa a existir como exceção. Ainda assim, políticas públicas como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) demonstram tanto avanços quanto limites: em 2026, estão previstos cerca de 22 mil livros em braille para pouco mais de 3 mil estudantes, com investimento de R$ 27 milhões, de acordo com o Ministério da Educação. O número revela esforço — mas também a escala reduzida frente à demanda.

 

Os dados reforçam essa tensão. No Brasil, há cerca de 338 mil pessoas cegas, segundo a PNAD Contínua de 2022, do IBGE, enquanto grande parte do acesso à leitura ocorre por meios digitais: 86% utilizam audiolivros e 75% formatos digitais, e quase metade aponta dificuldade para conseguir livros acessíveis, indicou o estudo “Ler para ser – Literatura como cidadania”, da Fundação Dorina Nowill para Cegos. O problema, portanto, não é apenas produzir — é garantir circulação, diversidade e autonomia.

 

Pensar acessibilidade não é criar uma nova etapa — é desmontar essa lógica e produzir já a partir da diversidade, reconhecendo pessoas com deficiência como agentes do processo.

 

A força da literatura anticapacitista é tão contundente quanto o capacitismo estrutural que sufoca. É ao garantir acesso e participação que surgem novas perspectivas, pertencimento e transformação. O capacitismo é ser medido para caber em um mundo que não foi feito para si. A literatura rompe isso ao criar identificação, deslocar olhares e construir protagonismos sem estereótipos.

 

A leitura é o elo com a cultura. É o que faz um bando de gente ser povo, se sentir como povo, pensar como um povo, uma nação e um sentido, um sujeito significante em busca de um significado. Ler é se deixar enredar, organizar o mundo e também resistir: afirmar o que é precioso, mesmo quando tentam negar esse direito.

 

Se ainda precisamos “adaptar” a literatura, é porque se segue aceitando um modelo que nunca foi pensado para todos. Isso não é falha. É escolha. E não fomos nós que a fizemos.

 

Igor Girão é formado em Biblioteconomia e coordena o Setor de Leitura Acessível da Biblioteca Pública Estadual do Ceará. Cadeirante e com baixa visão, tornou-se o primeiro homem com deficiência múltipla a concluir um mestrado em Ciência da Informação no Brasil.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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