
A relação entre governante e vice raramente se explica apenas pela afinidade pessoal. Em geral, ela nasce de composições partidárias e pacto de conveniência eleitoral, por isso, o vínculo pode permanecer apenas na superfície do protocolo. Na sociologia do poder, essa relação pode ser entendida como uma aliança formal permeada por interesses nem sempre convergentes. Governante e vice ocupam uma relação politicamente interdependente, mas simbolicamente tensa, porque embora compartilhem a legitimidade da chapa, não necessariamente partilham a mesma centralidade no exercício do poder.
Porém, a boa relação entre governante e vice resulta do equilíbrio entre poder, reconhecimento e respeito aos limites. Há harmonia quando o governante sabe partilhar prestígio sem perder autoridade, e o vice compreende que proximidade com o poder não significa disputa permanente por centralidade. Sociologicamente, a relação funciona melhor quando ambos aceitam que a estabilidade política vale mais do que o conflito de egos. “ A boa relação entre governante e vice resulta do equilíbrio entre poder, reconhecimento e respeito aos limites” Olga Lustosa
A aliança entre o presidente Lula e o vice-presidente, Geraldo Alckmin, firmada para a eleição de 2022 reuniu dois políticos historicamente opositores, representando a união entre a esquerda sindicalista e o centro liberal. Eles foram adversários históricos e na eleição de 2006, Alckmin enfrentou Lula no segundo turno. Os perfis percorreram caminhos distintos, até se encontrarem e se completarem; um metalúrgico, oratória carismática, o outro, médico, perfil técnico, reservado. Geraldo Alckmin assumiu a presidência várias vezes, substituiu temporariamente o presidente Lula tantas outras, mantendo a discrição. Há indícios de que seguirão juntos em 2026.
Em Mato Grosso, Júlio Campos, foi o primeiro governador eleito pelo voto popular após o período do Regime Militar. Vivendo entre Cuiabá e Várzea Grande, Júlio Campos buscou o candidato a vice-governador no interior e numa região, à época, bem afastada politicamente da capital Cuiabá; escolheu Wilmar Peres de Farias, político influente em Barra do Garças e região. Em 1986, Júlio Campos renunciou ao cargo para disputar uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte. Wilmar Peres assumiu o governo do estado, em total fidelidade a Júlio Campos, até o final do mandato, em março de 1987. Júlio Campos foi eleito deputado federal constituinte por Mato Grosso em 1986.
Em maio de 2002 Blairo Maggi visitou o então prefeito de Cuiabá, Roberto França, para apresentar-lhe o seu projeto de disputar o governo do Estado pelo PPS. Blairo pediu oficialmente a Roberto França a colocação do nome de sua esposa, Iraci França, à disposição para ser sua candidata a vice-governadora. Em entrevista, em 2005, o governador Blairo Maggi elogiou a postura ética e colaborativa de Iraci no Palácio Paiaguás, em todas as vezes que esteve na interinidade do cargo de governadora. Blairo Maggi foi o último governador do estado a renunciar ao mandato para se candidatar a outro cargo. Em 31 de março de 2010, renunciou e o vice-governador Silval Barbosa, assumiu o governo. Silval reelegeu-se governador do estado e Blairo elegeu-se senador com mais de 1 milhão de votos.
Pedro Taques e Carlos Fávaro se uniram numa chapa governador e vice-governador em 2014, vindo basicamente do mesmo grupo político. Ao longo dos anos, a relação deteriorou-se, resultando em um rompimento político, quando em abril de 2018, Fávaro protocolou uma carta de renúncia ao cargo de vice-governador do estado. Ambos foram candidatos em 2018, Pedro Taques, à reeleição e Carlos Fávaro, a uma vaga no Senado. Não se elegeram. No entanto, há notícias veiculadas de uma possível reaproximação entre eles nas eleições deste ano, compondo chapa majoritária ao senado.
O governador Mauro Mendes renuncia ao mandato dia 31 de março, às 14:30 para candidatar-se ao Senado e o vice-governador Otaviano Pivetta será empossado governador do Estado.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com

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