
Rodinei Crescêncio
Há algo de profundamente simbólico no recente vídeo de propaganda divulgado pelo governo do Irã contra os Estados Unidos. Não apenas pelo conteúdo, uma sequência de imagens que rememora vítimas de intervenções militares americanas ao redor do mundo, mas pela forma. A promessa de vingança, costurada por imagens fortes e trilha dramática, não é apenas uma mensagem política: é uma peça de guerra.
Porque a guerra, hoje, não se trava apenas com armas. Ela se constrói também no campo simbólico, narrativo e, sobretudo, imagético. A propaganda sempre foi um dos seus pilares. Da mesma forma que tanques ocupam territórios, imagens ocupam imaginários. E, nesse campo, vencer pode significar muito mais do que destruir o inimigo, pode significar moldar a forma como o mundo o enxerga.
Os Estados Unidos entenderam isso como poucos. Ao longo do século XX e início do XXI, construíram uma hegemonia não apenas militar e econômica, mas cultural. Hollywood, a música, a publicidade e até os discursos políticos funcionaram como engrenagens de uma máquina sofisticada de produção de sentido. O “American Dream” não foi apenas um ideal: foi uma narrativa vendida com competência ao resto do mundo e amplamente comprada por nós, no Ocidente. “ O “American Dream” não foi apenas um ideal: foi uma narrativa vendida com competência ao resto do mundo e amplamente comprada por nós, no Ocidente”
Essa narrativa se apoiava em imagens cuidadosamente construídas: a terra das oportunidades, o berço da liberdade, o guardião da democracia. Mesmo quando suas ações externas revelavam contradições com guerras controversas, intervenções questionáveis, apoio a regimes autoritários, a imagem persistia. A propaganda, nesse sentido, não apagava os fatos, mas os reorganizava dentro de uma lógica que mantinha a legitimidade americana relativamente intacta.
O que chama atenção agora é a mudança desse equilíbrio. O vídeo iraniano, com toda sua carga emocional e acusatória, evidencia uma fragilidade crescente da imagem dos Estados Unidos. Não se trata apenas de uma peça isolada, mas de um sintoma, o monopólio narrativo americano está sendo desafiado.
Outros países, como o próprio Irã, mas também potências como a China e a Rússia, passaram a investir pesadamente em suas próprias máquinas de propaganda. E fazem isso com uma vantagem estratégica: exploram as contradições do discurso ocidental para construir contra-narrativas eficazes.
Nesse cenário, o poder da imagem se intensifica. Um vídeo viral, uma campanha bem dirigida ou uma sequência de fotos impactantes podem influenciar percepções globais, pressionar governos e até alterar o rumo de conflitos. A guerra de narrativas não substitui a guerra real, mas a complementa e, em certos momentos, pode ser decisiva.
Talvez o ponto mais desconfortável para nós, espectadores ocidentais, seja reconhecer o quanto sempre estivemos imersos em uma dessas narrativas. Consumimos, reproduzimos e, muitas vezes, defendemos uma imagem construída não necessariamente falsa, mas certamente parcial.
O mundo, agora, assiste à disputa por novas versões da verdade. E, como toda boa propaganda, nenhuma delas se apresenta como versão. Todas se vendem como realidade.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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