
As comunidades ribeirinhas tradicionais do Pantanal, conhecido por sua abundância de água, têm enfrentado a falta de água potável. Especialistas afirmam que essa é uma das consequências da contaminação das águas, causada pelo garimpo e pelo lançamento de esgoto sem tratamento. Para contornar a situação, famílias ribeirinhas têm se deslocado até Cuiabá para comprar água em garrafões.
Divulgação/Sesc Pantanal
A escassez de água limpa tem se tornado comum, principalmente na região do Rio Manso. Os poços artesianos, que antes exigiam pouca profundidade, agora precisam ser cada vez mais profundos. O problema se agrava quando, mesmo após a perfuração de dezenas de metros, a água encontrada é imprópria para consumo.
“Esse impacto da água não está sendo só em Barão de Melgaço, está sendo em todo lugar do Manso, porque nós [de Padilha], quando ‘furávamos’ um poço naquela região, era por 50 metros. Hoje nós furamos um poço por 180, 200 metros. Então todos nós compramos água em Cuiabá. Ninguém comprava água, hoje todo mundo compra”, relatou o pescador profissional Adilson da Silva.
“ Antes da construção dessa barragem, a gente vivia tomando água das nascentes e hoje não tem mais nascentes” Adilson da Silva, pescador
Morador da Comunidade Padilha, no município de Chapada dos Guimarães, ele afirma que a mudança ocorreu após a implantação da Barragem do Manso. Antes, segundo o pescador, a população consumia água diretamente das nascentes.
“Antes da construção dessa barragem, a gente vivia tomando água das nascentes e hoje não tem mais nascentes. Então ficou muito difícil, hoje estamos comprando água para levar”, disse.
Além da água, os peixes também apresentam sinais de contaminação, o que impacta diretamente o modo de vida tradicional das comunidades. A situação foi destacada pela promotora de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT), Ana Luíza Ávila Peterlini.
“Na maior planície alagável do planeta, eles [comunidades pantaneiras] não têm água potável, eles não têm água para beber. A gente precisa enxergar essas comunidades”, enfatizou.
Gilberto Leite/ALMT
A contaminação da água, no entanto, não é o único problema enfrentado. A falta de saneamento básico e o descarte irregular de lixo e esgoto estão entre as principais questões ambientais que afetam as populações próximas ao Rio Cuiabá.
“Uma das questões comuns entre todas as localidades e municípios por onde passamos, na bacia do rio Cuiabá, é em relação ao saneamento básico. Existe a Política Nacional de Saneamento Básico, que determina que os municípios tenham o Plano Municipal de Saneamento Básico, uma política pública essencial. Um dos problemas mais comuns é o lixo prejudicando a drenagem ou o esgoto se misturando com vazamentos de água potável, contaminando as redes de abastecimento”, explicou o engenheiro sanitarista e pesquisador da UFMT, Rafael Pedrollo. “ Um dos problemas mais comuns é o lixo prejudicando a drenagem ou o esgoto se misturando com vazamentos de água potável” Rafael Pedrollo, engenheiro sanitarista e pesquisador
Os problemas socioambientais foram levantados durante a 3ª Expedição do Rio Cuiabá, realizada entre os dias 9 e 13 de março, que percorreu quase 900 quilômetros. A comitiva reuniu 25 profissionais, entre pesquisadores, representantes de órgãos ambientais e lideranças locais, com o objetivo de ouvir comunidades ribeirinhas e observar a situação ambiental do rio e do Pantanal.
A expedição passou por Cuiabá, Várzea Grande, Rosário Oeste, Nobres, Acorizal, Chapada dos Guimarães, Santo Antônio de Leverger, Barão de Melgaço e Poconé. Um diagnóstico com observações de pesquisadores, lideranças locais e representantes de órgãos ambientais foi apresentado na última terça-feira (17), durante coletiva de imprensa.
A ação contou com a participação de diferentes órgãos públicos, como a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), a Marinha do Brasil, o Batalhão da Polícia Militar de Proteção Ambiental, a Associação do Segmento da Pesca de Mato Grosso (ASP), o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Cuiabá e a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT).
Os apontamentos devem ser organizados em um relatório oficial, que será encaminhado a órgãos como a Sema e o MP-MT. Os dados devem embasar a criação de políticas públicas para preservar o Pantanal e garantir qualidade de vida às comunidades tradicionais.
Ainda em 2026, o Plano da Bacia Hidrográfica do Rio Cuiabá deve ser concluído pela UFMT e orientar ações de preservação do rio e das populações do entorno.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

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