
Um homem mineiro, de Belo Horizonte, de apenas 42 anos ameaça fazer o chão da República tremer se contar tudo sobre os mais de R$ 17 bilhões torrados com fraude, suborno de funcionários públicos, operações bancárias ilegais, uso e cedência de jatos particulares, iates de luxo, festas extravagantes com presença de políticos, religiosos, modelos, empresários e membros da justiça brasileira. Não é mais sobre o que ou quanto vão apurar de fraude com a delação. A expectativa é sobre os nomes que serão ditos pela boca de Daniel Vorcaro.
Brasília treme e se encolhe diante de colaborações premiadas. Foi assim com Roberto Jefferson, no caso do Mensalão; Alberto Youssef, no caso da Lava Jato, com Joesley Batista, no caso JBS e outros casos. “ Não, Vorcaro não tem o menor interesse em contribuir com o fim da corrupção no Brasil. Ele vai falar por mero interesse em diminuir a própria pena, valendo-se do Instituto da Delação Premiada”
As viagens internacionais e os eventos milionários, deslocamentos de amigos em seus jatos executivos expuseram o gosto do banqueiro pelo excesso; coleção de relógios exclusivos e de mulheres também. A ostentação relatada na imprensa demonstra certo distanciamento da realidade nacional, produzindo uma imagem moralmente perturbadora. Uma confraternização, com degustação de um whisky famoso, com presença de ministros e alta cúpula política do Brasil consumiu despreocupadamente 3 milhões de reais.
A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República avançam com a proposta de delação por absoluta ineficiência para obterem as provas que precisam para garantir a responsabilização dos envolvidos nas fraudes do Banco Master, dentro do prazo. Muitos já foram citados na imprensa devido ao vazamento dos prints de conversas por aplicativo de Vorcaro com a namorada, com o falecido assessor e com o cunhado. O circo está armado. Por enquanto Vorcaro está no estágio 1 do processo, assinou o termo de confidencialidade. Na etapa seguinte tem que apresentar provas documentadas do funcionamento de esquema.
Não, Vorcaro não tem o menor interesse em contribuir com o fim da corrupção no Brasil. Ele vai falar por mero interesse em diminuir a própria pena, valendo-se do Instituto da Delação Premiada, que não é uma invenção da legislação brasileira, mas no Brasil é disciplinada pela Lei 12.850/2013 e apresenta o contraditório de possibilitar ao membro de uma quadrilha criminosa negociar com o aparato da justiça do Estado, sua versão dos fatos, assumir a culpa e obter de redução de pena até perdão judicial.
Certa vez li que colaboração premiada é um instrumento que instiga os peixes pequenos a denunciar os tubarões que estão no topo. Muitos creem que existe um grande nome acima de Vorcaro. Mesmo assim, antes mesmo de falar ele já conseguiu um upgrade na sua condição de preso. Foi transferido de uma penitenciária para a Superintendência da Polícia Federal. As declarações do criminoso serão comprovadas pela justiça, mas segundo notícias lidas, esperam que Vorcaro enderece ameaças e recados velados aos que lhe abandonaram após a prisão.
Fico indignada com esse contexto de aceitação em torno da colaboração premiada porque eu preferia ter uma Polícia Federal competente para, no tempo determinado pela lei, apresentar nomes e as provas dos que tiveram relação próxima e promíscua com Vorcaro. Dos políticos, nomes e grau de interesse, inclusive de alguns governadores que numa urgência nunca vista, correram para socorrer o banqueiro fanfarrão e já falido.
Não é necessário esperar pela colaboração de Vorcaro para se perceber a promiscuidade da relação do banqueiro com os frequentadores das orgias que ele promovia no Brasil e no exterior. O quebra-cabeça não parece tão difícil para montar, com tantos recursos para se rastrear o movimento de pessoas e de apropriação ou transferência de recursos. A verdade é que se desfaz o mito do banqueiro jovem e bem relacionado. Daniel Vorcaro não passava de um playboy que vivia com dinheiro alheio e público.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com

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